O que é preciso para construir um turismo com diversidade

Philippe Capouillez • June 13, 2023

O Brasil é um país rico em diversidade cultural, natural e humana. No entanto, nem sempre essa diversidade é valorizada e respeitada no setor turístico, que muitas vezes reproduz estereótipos, preconceitos e desigualdades. Como podemos construir um turismo com diversidade no Brasil, que reconheça e valorize as diferentes expressões e identidades dos povos e territórios brasileiros?


Neste post, vamos apresentar algumas dicas e boas práticas para promover um turismo com diversidade no Brasil, baseado nos princípios da sustentabilidade, da inclusão e do respeito.


1. Conheça a realidade local: Antes de planejar ou realizar uma viagem, procure conhecer a realidade local do destino escolhido. Informe-se sobre a história, a cultura, os costumes, as tradições, os problemas e os desafios da comunidade que vai receber você. Busque fontes confiáveis e diversificadas de informação, evitando se basear em estereótipos ou preconceitos. Respeite as diferenças e as especificidades de cada lugar e de cada povo.


2. Escolha empresas e serviços comprometidos com a diversidade: Na hora de contratar serviços turísticos, como hospedagem, transporte, alimentação, guias, passeios, etc., procure escolher empresas e profissionais que sejam comprometidos com a promoção da diversidade. Verifique se eles possuem políticas e práticas de responsabilidade social e ambiental, de respeito aos direitos humanos, de valorização da cultura local, de inclusão de grupos vulneráveis, etc. Prefira aqueles que gerem benefícios para a comunidade local, que sejam participativos e transparentes, que respeitem as leis e as normas vigentes.


3. Interaja com a população local: Uma das melhores formas de conhecer e valorizar a diversidade é interagir com a população local do destino visitado. Procure conversar, ouvir, aprender, trocar experiências e conhecimentos com as pessoas que vivem no lugar. Seja educado, cordial, curioso e aberto ao diálogo. Evite julgar, impor ou criticar as formas de vida, as crenças, as opiniões ou as escolhas das pessoas. Reconheça e respeite as diferenças e as semelhanças entre você e elas.


4. Consuma produtos e serviços locais: Outra forma de valorizar a diversidade é consumir produtos e serviços locais durante a sua viagem. Procure comprar artesanato, alimentos, bebidas, roupas, lembranças, etc., que sejam produzidos pela comunidade local, que expressem a sua cultura e a sua identidade. Dessa forma, você contribui para o desenvolvimento econômico local, para a geração de renda e emprego, para a preservação do patrimônio cultural e natural. Além disso, você leva para casa uma lembrança autêntica e original da sua viagem.


5. Seja um agente da diversidade: Por fim, seja um agente da diversidade durante e após a sua viagem. Divulgue as boas práticas que você observou ou realizou no destino visitado. Compartilhe as suas experiências, aprendizados e descobertas com outras pessoas. Sensibilize e mobilize os seus amigos, familiares, colegas e redes sociais para a importância do turismo com diversidade. Seja um exemplo de viajante consciente, responsável e solidário.


Com essas dicas, esperamos que você possa construir um turismo com diversidade no Brasil, que seja uma fonte de enriquecimento pessoal e coletivo, de aprendizado mútuo e de transformação social.

Por Jaqueline Santos 30 de abril de 2026
O Rio de Janeiro guarda, em seus territórios, camadas de história que o olhar apressado não alcança. A Pequena África, o Cais do Valongo, a Pedra do Sal: lugares onde a memória da diáspora é presença viva, sentida antes mesmo de ser explicada. É nesse território que a Florencios Tours & Travel construiu sua operação. Fundada por Damiana Silva, a DMC carioca especializou-se em experiências culturais que conectam visitantes internacionais à história afro-brasileira com curadoria, responsabilidade e escuta real. Para falar sobre como se constrói uma DMC afrocentrada com consistência e propósito, o papel da comunidade nesse processo, os desafios e oportunidades para receber turistas de fora, a Diaspora.Black conversou com Damiana Silva : DIASPORA.BLACK : Como surgiu a Florencios Tours & Travel e como vocês constroem os roteiros? DAMIANA SILVA: " A Florencios Tours & Travel tem uma trajetória que acompanha a minha própria evolução no turismo. O CNPJ da empresa foi aberto em 2003, inicialmente para atender a uma exigência do mercado — a emissão de notas fiscais para as operadoras e agências com as quais eu já atuava como guia de turismo. Com o passar dos anos, essa estrutura começou a ganhar um novo significado. A partir de 2012, iniciei de forma gradual a operação de serviços diretos ao cliente final, principalmente através de plataformas internacionais. Esse foi um momento importante de transição, onde passei a atuar não apenas como guia, mas também como organizadora da experiência. Em 2016, consolidei parcerias estratégicas que impulsionaram a Florencios como uma operadora de receptivo internacional, ampliando nossa atuação e estruturando o que hoje é a empresa: uma DMC especializada em experiências culturais no Rio de Janeiro. Ao longo de mais de 30 anos de experiência no turismo, percebi uma lacuna importante — a ausência de narrativas profundas sobre a história e a contribuição da população negra na formação do Brasil. É a partir desse entendimento que nasce o propósito da Florencios: conectar culturas através de experiências autênticas, com curadoria, sensibilidade e responsabilidade histórica. A construção dos nossos roteiros segue três pilares principais: base histórica e curadoria consistente, vivência real nos territórios e conexão humana. Cada roteiro é desenhado como uma jornada, integrando lugares como Pequena África, Cais do Valongo, IPN e Pedra do Sal com narrativas que fazem sentido para o visitante internacional — especialmente para o público da diáspora — criando experiências que vão além do turismo tradicional." DIASPORA.BLACK : O que vocês consideram essencial na escolha dos guias e parceiros locais, como as comunidades participam e qual é o impacto real que essa jornada gera para quem vive nesses territórios? DAMIANA SILVA: " Assim como a Florencios foi construída de forma gradual e consistente, a escolha dos nossos guias e parceiros segue esse mesmo princípi o: qualidade, coerência e responsabilidade com a narrativa. O guia, para nós, não é apenas um profissional operacional — ele é um intérprete cultural. Por isso, trabalhamos com três critérios fundamentais: domínio histórico e preparo técnico real, capacidade de comunicação com o público internacional e alinhamento com a narrativa afro-brasileira, com respeito e consciência. Grande parte dos nossos parceiros vem de uma construção de relacionamento ao longo dos anos — instituições culturais, espaços de memória e profissionais que atuam diretamente nesses territórios. A comunidade não é um ponto de passagem. Ela faz parte da estrutura da experiência. Esse modelo gera impacto concreto com: geração de renda direta e recorrente para guias, instituições e iniciativas locais, valorização de espaços historicamente invisibilizados e fortalecimento da memória e identidade cultural desses territórios. Após anos atuando tanto como guia quanto como operadora, ficou muito claro para mim que o turismo pode seguir dois caminhos: o da exploração superficial ou o da construção de valor. A Florencios escolhe, de forma consciente, o segundo." DIASPORA.BLACK : Em março vocês receberam um grande grupo de cruzeiristas estadunidenses que fizeram roteiros pelo Rio de Janeiro. Quais os desafios e oportunidades para receber turistas de fora? DAMIANA SILVA: " Março representou um ponto de consolidação importante da nossa operação. Atendemos 243 visitantes internacionais em poucos dias, em uma operação que envolveu diferentes roteiros simultâneos para passageiros da Celebrity Equinox e do charter do Dave Koz Cruise. Tivemos tanto operações próprias da Florencios, com grupos menores e roteiros altamente personalizados, quanto uma frente ampliada através da parceria com a Diaspora.Black, que foi fundamental para expandir nosso alcance e escalar o volume de passageiros. Ao longo de quatro dias, operamos uma diversidade de experiências que refletem bem o nosso posicionamento: Experiências culturais como Little Africa + Carnaval Backstage, com forte conexão histórica e vivencial. Roteiros clássicos, cuidadosamente executados, como Cristo Redentor com almoço típico brasileiro e Pão de Açúcar. City tours panorâmicos passando por Leme, Copacabana, Ipanema e Arpoador e Imersões urbanas incluindo Escadaria Selarón, Santa Teresa, Cinelândia e Catedral Metropolitana. Para quem construiu a operação de forma gradual, como foi o meu caso, esse tipo de entrega não acontece por acaso — ela é resultado de anos de estruturação, relacionamento com fornecedores e domínio logístico. Os principais desafios nesse contexto são: tempo extremamente limitado das operações de porto, alto volume com necessidade de padronização e consistência, expectativa elevada do público internacional e execução simultânea com múltiplos guias, veículos e roteiros Por outro lado, as oportunidades são muito claras. Existe uma mudança no comportamento do turista internacional — especialmente o norte-americano — que hoje busca mais do que pontos turísticos. Ele busca contexto, história e conexão. E é exatamente nesse ponto que a Florencios se posiciona. Quando conseguimos unir eficiência operacional com profundidade cultural, o resultado não é apenas um passeio bem executado — é uma experiência memorável, com alto potencial de recomendação e retorno. Por fim, é importante destacar que uma operação desse porte só é possível com uma equipe sólida, tanto nos bastidores quanto na linha de frente. Meu agradecimento especial à nossa equipe interna — Isis Magalhães, Milena Lunz e Edson Castro — que garante que tudo funcione com precisão, do planejamento à execução, e também aos nossos guias parceiros, que dão vida a cada experiência com sensibilidade, conhecimento e cuidado. E, no meio de toda essa operação — horários, logística e coordenação — existem momentos que não entram em planilhas. O olhar de alguém ao reconhecer uma história, o silêncio em um lugar de memória, a emoção que surge de forma inesperada. Nesses instantes em que entendemos que não estamos apenas recebendo turistas. Estamos criando pontes. E é isso que dá sentido a tudo o que fazemos." DIASPORA.BLACK : O que esse momento revelou sobre o que acontece quando dois lados da diáspora se encontram? DAMIANA SILVA: " Esse momento trouxe uma confirmação muito clara sobre o nosso propósito. Ao longo dos anos, construímos experiências voltadas para a valorização da história afro-brasileira. Mas, quando recebemos grupos da diáspora, especialmente afrodescendentes dos Estados Unidos, essa experiência ganha uma outra dimensão. O que acontece não é apenas interesse — é identificação. Em lugares como Pequena África, Cais do Valongo ou Pedra do Sal, existe uma conexão que além de ser explicada, ela é sentida. Esse encontro revela três aspectos importantes: a história da diáspora é compartilhada, mesmo atravessando geografias diferentes, existe um forte senso de pertencimento, mesmo em territórios ainda não visitados e há uma busca ativa por reconexão com essas narrativas. Para muitos visitantes, não se trata apenas de conhecer — mas de reconhecer-se dentro daquela história. E para nós, como operadores e anfitriões, isso reforça um ponto central: Não estamos apenas organizando roteiros. Estamos conduzindo experiências que exigem responsabilidade, escuta e profundidade."
Por Jaqueline Santos 27 de abril de 2026
Há projetos que chegam como um briefing e saem como um legado. A visita da equipe e organizações parceiras situadas no Leste Asiático da Open Society Foundations ao Brasil, no início do mês, foi um deles. E a Diaspora.Black garantiu que cada encontro dessa agenda intensa e estratégica acontecesse com cuidado, presença e intenção. A Open Society Foundations é uma das maiores organizações filantrópicas do mundo, dedicada ao fortalecimento de sociedades abertas, inclusivas e democráticas. A visita ao Brasil tinha o propósito de aproximar lideranças do Leste Asiático das experiências e aprendizados de organizações e lideranças brasileiras em poder político feminista, ativismo digital e uso das artes como ferramenta de mobilização. Cinco dias em duas cidades: São Paulo e Rio de Janeiro. Uma programação que exigia muito mais do que logística.
Por Jaqueline Santos 24 de abril de 2026
Portugal nunca esteve no plano original. Quando Carlos Humberto, fundador e CEO da Diaspora.Black, começou a traçar os primeiros movimentos internacionais da startup, o olhar estava voltado para os Estados Unidos, mercado estruturado, com uma diáspora africana economicamente expressiva e historicamente mobilizada pelo turismo de raízes. Mas foi durante visitas a Lisboa e ao interior de Portugal que algo mudou. Não foi uma descoberta turística convencional. Foi um reconhecimento. O tipo silencioso que acontece quando você atravessa uma rua e sente que aquela pedra já foi pisada por gente que carregava a mesma ancestralidade que você. Portugal, país que durante séculos foi um dos maiores operadores do tráfico transatlântico de africanos escravizados, carrega em sua arquitetura, culinária, linguagem e território uma presença negra profunda e sistematicamente apagada dos roteiros turísticos tradicionais. Ali estava um mercado inteiramente por estruturar e uma história esperando para ser contada com novos olhos.
Por Jaqueline Santos 16 de abril de 2026
Existe uma diferença fundamental entre visitar um lugar e pertencer a ele, ainda que por algumas horas. Vila Isabel sempre soube dessa diferença. O bairro não apenas guarda a história do samba, ele a respira, a performa, a transmite pelas calçadas, pelas vozes que ainda ecoam Noel Rosa, pela escola de samba que há décadas carrega o peso e a glória de um povo. É desse território que nasce a Rota do Samba "Os Três Apitos", segundo roteiro do programa desenvolvido pela Etnias Turismo e Cultura em parceria com a Diaspora.Black e patrocínio da Embratur. A primeira rota foi inaugurada em Oswaldo Cruz, no coração de Madureira. Agora, Vila Isabel se torna o segundo capítulo de um circuito estruturado de valorização das territorialidades do samba carioca.
Por Jaqueline Santos 9 de abril de 2026
Série raízes que guiam : como a ancestralidade transforma o turismo
Por Jaqueline Santos 25 de março de 2026
O turismo é um dos setores que mais emprega mulheres no mundo. Segundo a Organização Mundial do Turismo (UNWTO), elas representam cerca de 54% da força de trabalho global. Ainda assim, essa presença é marcada por desigualdades. A base da pirâmide é feminina, enquanto os cargos de liderança seguem majoritariamente ocupados por homens, com uma diferença salarial média de 14,7%. Quando olhamos para o empreendedorismo no setor, as mulheres estão à frente de 57% dos negócios, segundo o IBGE. E as mulheres negras são as protagonistas do Afroturismo no Brasil. Desafios que revelam estruturas Falar de protagonismo exige reconhecer os desafios. Mulheres negras ocupam um lugar onde racismo e sexismo se cruzam. Isso impacta diretamente o acesso a crédito, redes de contato, formação e espaços de decisão. No turismo tradicional, essa desigualdade aparece na baixa presença em cargos executivos de grandes operadoras, redes hoteleiras e companhias aéreas. Ao mesmo tempo, essas mulheres sempre estiveram nos territórios, sustentando práticas, organizando vivências e preservando memórias. Conquistas que apontam um novo caminho O crescimento do Afroturismo no Brasil evidencia uma virada importante. O Mapeamento Nacional do Afroturismo, realizado pela Diaspora.Black em parceria com a Embratur e o Banco de Desenvolvimento da América Latina e Caribe (CAF), mostra que 66,7% das iniciativas do setor são fundadas ou lideradas por mulheres negras. Existe também um alto nível de qualificação. 47% dessas lideranças possuem pós-graduação, combinando formação acadêmica com saberes ancestrais e territoriais. Outro dado revela a força desse movimento. 51% das iniciativas têm até cinco anos de existência. Isso indica um setor vivo, em expansão e impulsionado por uma nova geração de empreendedoras. Por que a mulher negra lidera o Afroturismo? Cada mulher negra carrega na sua trajetória resistências cotidianas e formas de existir que se traduzem diretamente no modo de fazer turismo. Liderança que cuida e sustenta Mulheres negras historicamente sustentam a vida nos territórios. São guardiãs de memórias e saberes. No Afroturismo, isso se traduz em uma gestão que equilibra geração de renda com preservação cultural. Existe responsabilidade, escuta e continuidade. Estratégia construída na vivência Diante de mais barreiras, essas mulheres desenvolvem uma visão ampla do negócio. Atuam em múltiplas frentes. Pensam estratégia, operam, comunicam, gerem e criam. Essa multifuncionalidade se torna um diferencial. Ao mesmo tempo, constroem redes de apoio entre mulheres, fortalecendo cadeias produtivas e promovendo circulação de renda dentro das próprias comunidades. Hospitalidade como experiência de afeto A hospitalidade ganha outra dimensão. Existe cuidado real com quem chega. Escuta, troca, presença. Comer junto, ouvir histórias, compartilhar vivências fazem parte da experiência. Em um mundo em que o racismo ainda atravessa o ato de viajar, criar espaços seguros e acolhedores é essencial. Empreendedorismo com impacto coletivo Existe um compromisso que vai além do lucro. Muitas dessas lideranças priorizam o fortalecimento da comunidade, a redistribuição de renda e a sustentabilidade cultural. O crescimento do negócio caminha junto com o desenvolvimento do território. O impacto é econômico, mas também social e simbólico. Afroturismo como continuidade de vida Para muitas mulheres negras, o Afroturismo não é apenas um trabalho. É continuidade de história, de identidade e de propósito. As experiências carregam vivências pessoais, memórias coletivas e práticas profissionais. Essa conexão cria algo difícil de ser replicado por qualquer pessoa. Um novo paradigma no turismo No Afroturismo mulheres negras criam novos caminhos. E apontam para um futuro onde viajar também é reconhecer, respeitar e se reconectar com histórias que sempre estiveram presentes. Neste Mês da Mulher, nada mais potente do que viver essas experiências a partir de quem as protagoniza. Conheça narrativas de mulheres negras que revelam outras camadas dos destinos e carregam legados de liderança, resistência e construção de território. Acesse aqui
Por Jaqueline Santos 18 de março de 2026
Viajar para o Pantanal já é, por si só, uma experiência extraordinária. A maior planície alagada do mundo revela uma biodiversidade única, paisagens mutáveis e uma conexão profunda com os ciclos da natureza. Mas existe uma dimensão do Pantanal que nem todos conhecem, onde a presença negra foi fundamental na construção da cultura, da economia e dos modos de vida locais. Para agências e empresas que organizam viagens em grupo, este é um convite para apresentar o destino sob uma nova perspectiva, mais autêntica, completa e conectada à cultura local.
Por Jaqueline Santos 9 de março de 2026
O Afroturismo vem ganhando cada vez mais relevância no cenário do turismo brasileiro, ao conectar viajantes a experiências que valorizam a história, a cultura e a herança africana e afro-brasileira, ao mesmo tempo em que gera impacto social e econômico em diversos territórios do país. Nesse contexto, o diálogo com instituições tradicionais do setor torna-se fundamental para ampliar a visibilidade e a integração dessas experiências ao mercado de viagens. Para falar sobre esse movimento e o papel das agências nesse processo, conversamos com Ana Carolina Medeiros, presidente da ABAV Nacional (Associação Brasileira de Agências de Viagens) , uma das entidades mais influentes do turismo no Brasil, que representa e conecta milhares de agências de viagens em todo o país. Na entrevista, ela compartilha sua visão sobre o crescimento do Afroturismo e as oportunidades para o mercado. DIASPORA.BLACK: Por que a ABAV consolidou o Afroturismo como um pilar estratégico na ABAV Expo 2025? ANA CAROLINA MEDEIROS: “Porque a ABAV entende que o turismo está vivendo uma mudança estrutural. Hoje, o viajante busca experiências com significado, identidade e conexão real com os territórios — e o Afroturismo reúne todos esses elementos de forma muito consistente. Ao colocá-lo como pilar estratégico da ABAV Expo 2025, a entidade faz uma leitura clara de mercado: não estamos falando de um tema pontual, mas de um segmento com potencial concreto de negócios, inovação e posicionamento internacional. O Brasil tem um dos maiores patrimônios culturais afrodescendentes do mundo, e isso precisa ser tratado com protagonismo, profissionalismo e visão estratégica. Ao trazer o Afroturismo para o centro das discussões e das negociações, a ABAV cumpre seu papel de liderança institucional, estimulando o trade a olhar para esse ativo de forma estruturada, qualificada e sustentável, conectando diversidade, desenvolvimento econômico e competitividade do turismo brasileiro.” DIASPORA.BLACK: Como a ABAV avalia que a inclusão de experiências afrocentradas pode agregar valor ao portfólio das agências de viagem? ANA CAROLINA MEDEIROS: “Agrega valor porque amplia o portfólio das agências com produtos que fogem da lógica da comoditização. Experiências afrocentradas trazem densidade cultural, narrativa, identidade e propósito — atributos cada vez mais decisivos na escolha de uma viagem. Isso permite às agências oferecer propostas mais completas, personalizadas e alinhadas ao que o consumidor contemporâneo valoriza. Do ponto de vista estratégico, o Afroturismo contribui para diversificar destinos, fortalecer economias locais e criar experiências que estimulam maior permanência e envolvimento do viajante. Para as agências, isso significa diferenciação competitiva, fortalecimento de marca e uma relação mais sólida com públicos que buscam autenticidade, representatividade e responsabilidade na forma de viajar.” DIASPORA.BLACK : Na perspectiva da ABAV, que busca melhorar a qualidade dos serviços oferecidos pelas agências, qual é a importância de contar com parceiros como a Diaspora.Black, comprometidos com a excelência no Afroturismo, com experiências bem estruturadas e seguras? ANA CAROLINA MEDEIROS: “O Afroturismo exige especialização. Não é um produto que pode ser improvisado ou tratado de forma superficial. Ele demanda curadoria, conhecimento histórico, sensibilidade cultural e uma operação bem estruturada. Por isso, contar com parceiros como a Diaspora.Black é fundamental para garantir qualidade, segurança e consistência na experiência oferecida ao viajante. Parcerias desse tipo permitem que as agências ampliem seu portfólio com confiança, trabalhando com operadores que já têm método, repertório e compromisso com boas práticas. Isso eleva o padrão do produto turístico, reduz riscos operacionais e reputacionais e contribui para a profissionalização do segmento como um todo. É assim que se constrói um ecossistema de turismo mais diverso, responsável e competitivo, alinhado às melhores práticas internacionais.”
Por Jaqueline Santos 6 de março de 2026
Nos últimos anos, o turismo tem passado por uma transformação importante. Cada vez mais viajantes buscam experiências autênticas, conexões humanas e viagens com propósito . Nesse contexto, o Afroturismo surge como um movimento que vai além do lazer: ele conecta história, identidade, memória e desenvolvimento social. O Afroturismo representa uma nova forma de viajar, valorizando a contribuição das pessoas negras na formação das sociedades e promove experiências construídas a partir dos territórios e das comunidades. Como surgiu o Afroturismo O Afroturismo nasce do reconhecimento da importância da cultura africana na construção das sociedades contemporâneas. Ele é uma vertente do turismo que promove experiências ligadas à história, cultura, espiritualidade, gastronomia e memória da diáspora africana . Seu fortalecimento está conectado a transformações sociais e políticas que marcaram o século XX e início do século XXI. Movimentos como o Black Lives Matter, nos Estados Unidos, e os processos de redemocratização e valorização da diversidade cultural em diversos países ajudaram a impulsionar o debate sobre representatividade e reconhecimento histórico. Nesse cenário, o turismo passou a ser visto também como um espaço de reparação simbólica e de valorização cultural , abrindo caminho para iniciativas que colocam a cultura negra no centro das experiências de viagem. No Brasil, país com uma das maiores populações negras fora da África, o Afroturismo ganha relevância ao resgatar histórias muitas vezes invisibilizadas e ao destacar a presença negra na formação do território, da cultura e da economia. O impacto social real do Afroturismo Diferente de muitos modelos tradicionais de turismo, o Afroturismo tem um forte compromisso com impacto social e desenvolvimento local. Ele contribui diretamente para a geração de renda em territórios que historicamente ficaram à margem das rotas turísticas convencionais, como periferias urbanas, quilombos e comunidades tradicionais. Dados de mapeamentos do setor mostram que 40% das comunidades que recebem experiências de Afroturismo registram geração direta de renda e empregos locais . Entre os principais impactos positivos estão: Geração de renda e fortalecimento da economia local Ao participar de experiências afroturísticas, os viajantes contribuem diretamente com afroempreendedores, guias locais, artesãos, cozinheiras tradicionais e lideranças comunitárias. Valorização da cultura e da memória negra As experiências permitem que as próprias comunidades contem suas histórias, resgatando narrativas apagadas pelo colonialismo e fortalecendo a preservação de patrimônios culturais. Protagonismo negro no turismo Um dado relevante revela que 85% das iniciativas de Afroturismo no Brasil são lideradas por mulheres negras , reforçando o papel do setor como ferramenta de autonomia econômica e transformação social. Turismo mais sustentável O Afroturismo frequentemente se conecta ao turismo de base comunitária, promovendo experiências mais respeitosas com os territórios, a cultura local e o meio ambiente. Além disso, ele movimenta áreas importantes da economia criativa, como gastronomia, moda, música, arte e artesanato, ampliando ainda mais o impacto econômico e cultural dessas iniciativas. Desafios e oportunidades para o crescimento do Afroturismo Apesar do crescimento e da crescente visibilidade, o Afroturismo ainda enfrenta desafios estruturais. Entre eles está o impacto do racismo estrutural e institucional , que historicamente invisibilizou a contribuição da população negra na formação cultural e econômica do país. Esse contexto também se reflete em dificuldades de acesso a crédito, burocracias para formalização de negócios e carência de capacitação técnica para comunidades que desejam estruturar experiências turísticas. Mesmo diante desses desafios, o Afroturismo apresenta oportunidades importantes para o futuro do turismo. Alguns fatores impulsionam esse crescimento: Busca por experiências com propósito Fortalecimento do afroempreendedorismo Produção de dados e reconhecimento institucional Força da economia criativa Com esse cenário, o Afroturismo se consolida como um dos movimentos mais relevantes do turismo contemporâneo, conectando desenvolvimento econômico, identidade cultural e impacto social. Diferentes formas de viver o Afroturismo Assim como a diáspora africana é diversa, o Afroturismo também se manifesta em diferentes tipos de experiências. Entre os principais formatos estão: Turismo de base comunitária e rural Nesse modelo, as próprias comunidades conduzem as experiências e compartilham seus saberes, modos de vida e práticas culturais. O turismo acontece no ritmo da comunidade, gerando renda local e promovendo preservação cultural e ambiental. Rotas históricas e culturais Também conhecidos como rolês afro, esses roteiros revelam a presença negra em cidades e territórios, conectando visitantes a histórias de resistência, memória e ancestralidade. São caminhadas guiadas que resgatam personagens, espaços e acontecimentos fundamentais para a formação do país. Afrogastronomia A culinária é um dos pilares da memória cultural afro-brasileira. Experiências gastronômicas destacam ingredientes, técnicas e saberes africanos que influenciaram profundamente a cozinha brasileira, além de valorizar o protagonismo das mulheres negras na transmissão desses conhecimentos. Afroturismo urbano Nas cidades, o Afroturismo promove uma releitura dos territórios a partir da perspectiva negra. Essas experiências revelam espaços de resistência cultural, movimentos artísticos e histórias invisibilizadas pelas narrativas oficiais. Turismo religioso de matriz africana Essas vivências conectam espiritualidade, ancestralidade e território, promovendo respeito e conhecimento sobre religiões de matriz africana e combatendo a intolerância religiosa. Experiências sensoriais e culturais Oficinas, práticas artísticas, música, dança e vivências culturais permitem que os visitantes experimentem a cultura afro-brasileira de forma imersiva e sensorial. Essas experiências fortalecem identidade, pertencimento e conexão cultural. O Afroturismo mostra que viajar também pode ser um ato de consciência, aprendizado e transformação. Ao colocar a cultura negra no centro das experiências, esse movimento contribui para recontar histórias, fortalecer comunidades e construir um turismo mais justo, diverso e sustentável. Descubra experiências de Afroturismo na plataforma Diaspora.Black
Por Jaqueline Santos 3 de março de 2026
A 36.ª edição da BTL (Better Tourism Lisbon Travel Market) ficará marcada na nossa memória como um momento de reconhecimento e consolidação. Participamos do maior evento de turismo de Portugal em um contexto histórico para o Brasil.