O Rio de Janeiro guarda, em seus territórios, camadas de história que o olhar apressado não alcança. A Pequena África, o Cais do Valongo, a Pedra do Sal: lugares onde a memória da diáspora é presença viva, sentida antes mesmo de ser explicada.
É nesse território que a
Florencios Tours & Travel construiu sua operação. Fundada por Damiana Silva, a DMC carioca especializou-se em experiências culturais que conectam visitantes internacionais à história afro-brasileira com curadoria, responsabilidade e escuta real.
Para falar sobre como se constrói uma DMC afrocentrada com consistência e propósito, o papel da comunidade nesse processo, os desafios e oportunidades para receber turistas de fora, a Diaspora.Black conversou com
Damiana Silva:
DIASPORA.BLACK: Como surgiu a Florencios Tours & Travel e como vocês constroem os roteiros?
DAMIANA SILVA: "A Florencios Tours & Travel tem uma trajetória que acompanha a minha própria evolução no turismo.
O CNPJ da empresa foi aberto em 2003, inicialmente para atender a uma exigência do mercado — a emissão de notas fiscais para as operadoras e agências com as quais eu já atuava como guia de turismo. Com o passar dos anos, essa estrutura começou a ganhar um novo significado.
A partir de 2012, iniciei de forma gradual a operação de serviços diretos ao cliente final, principalmente através de plataformas internacionais. Esse foi um momento importante de transição, onde passei a atuar não apenas como guia, mas também como organizadora da experiência.
Em 2016, consolidei parcerias estratégicas que impulsionaram a Florencios como uma operadora de receptivo internacional, ampliando nossa atuação e estruturando o que hoje é a empresa: uma DMC especializada em experiências culturais no Rio de Janeiro.
Ao longo de mais de 30 anos de experiência no turismo, percebi uma lacuna importante — a ausência de narrativas profundas sobre a história e a contribuição da população negra na formação do Brasil.
É a partir desse entendimento que nasce o propósito da Florencios: conectar culturas através de experiências autênticas, com curadoria, sensibilidade e responsabilidade histórica.
A construção dos nossos roteiros segue três pilares principais: base histórica e curadoria consistente, vivência real nos territórios e conexão humana.
Cada roteiro é desenhado como uma jornada, integrando lugares como Pequena África, Cais do Valongo, IPN e Pedra do Sal com narrativas que fazem sentido para o visitante internacional — especialmente para o público da diáspora — criando experiências que vão além do turismo tradicional."
DIASPORA.BLACK: O que vocês consideram essencial na escolha dos guias e parceiros locais, como as comunidades participam e qual é o impacto real que essa jornada gera para quem vive nesses territórios?
DAMIANA SILVA: "Assim como a Florencios foi construída de forma gradual e consistente, a escolha dos nossos guias e parceiros segue esse mesmo princípio: qualidade, coerência e responsabilidade com a narrativa.
O guia, para nós, não é apenas um profissional operacional — ele é um intérprete cultural.
Por isso, trabalhamos com três critérios fundamentais: domínio histórico e preparo técnico real, capacidade de comunicação com o público internacional e alinhamento com a narrativa afro-brasileira, com respeito e consciência.
Grande parte dos nossos parceiros vem de uma construção de relacionamento ao longo dos anos — instituições culturais, espaços de memória e profissionais que atuam diretamente nesses territórios.
A comunidade não é um ponto de passagem. Ela faz parte da estrutura da experiência.
Esse modelo gera impacto concreto com: geração de renda direta e recorrente para guias, instituições e iniciativas locais, valorização de espaços historicamente invisibilizados e fortalecimento da memória e identidade cultural desses territórios.
Após anos atuando tanto como guia quanto como operadora, ficou muito claro para mim que o turismo pode seguir dois caminhos: o da exploração superficial ou o da construção de valor. A Florencios escolhe, de forma consciente, o segundo."
DIASPORA.BLACK: Em março vocês receberam um grande grupo de cruzeiristas estadunidenses que fizeram roteiros pelo Rio de Janeiro. Quais os desafios e oportunidades para receber turistas de fora?
DAMIANA SILVA: "
Março representou um ponto de consolidação importante da nossa operação.
Atendemos 243 visitantes internacionais em poucos dias, em uma operação que envolveu diferentes roteiros simultâneos para passageiros da Celebrity Equinox e do charter do Dave Koz Cruise.
Tivemos tanto operações próprias da Florencios, com grupos menores e roteiros altamente personalizados, quanto uma frente ampliada através da parceria com a Diaspora.Black, que foi fundamental para expandir nosso alcance e escalar o volume de passageiros.
Ao longo de quatro dias, operamos uma diversidade de experiências que refletem bem o nosso posicionamento: Experiências culturais como Little Africa + Carnaval Backstage, com forte conexão histórica e vivencial. Roteiros clássicos, cuidadosamente executados, como Cristo Redentor com almoço típico brasileiro e Pão de Açúcar. City tours panorâmicos passando por Leme, Copacabana, Ipanema e Arpoador e Imersões urbanas incluindo Escadaria Selarón, Santa Teresa, Cinelândia e Catedral Metropolitana.
Para quem construiu a operação de forma gradual, como foi o meu caso, esse tipo de entrega não acontece por acaso — ela é resultado de anos de estruturação, relacionamento com fornecedores e domínio logístico.
Os principais desafios nesse contexto são: tempo extremamente limitado das operações de porto, alto volume com necessidade de padronização e consistência, expectativa elevada do público internacional e execução simultânea com múltiplos guias, veículos e roteiros
Por outro lado, as oportunidades são muito claras. Existe uma mudança no comportamento do turista internacional — especialmente o norte-americano — que hoje busca mais do que pontos turísticos. Ele busca contexto, história e conexão. E é exatamente nesse ponto que a Florencios se posiciona.
Quando conseguimos unir eficiência operacional com profundidade cultural, o resultado não é apenas um passeio bem executado — é uma experiência memorável, com alto potencial de recomendação e retorno.
Por fim, é importante destacar que uma operação desse porte só é possível com uma equipe sólida, tanto nos bastidores quanto na linha de frente. Meu agradecimento especial à nossa equipe interna — Isis Magalhães, Milena Lunz e Edson Castro — que garante que tudo funcione com precisão, do planejamento à execução, e também aos nossos guias parceiros, que dão vida a cada experiência com sensibilidade, conhecimento e cuidado.
E, no meio de toda essa operação — horários, logística e coordenação — existem momentos que não entram em planilhas. O olhar de alguém ao reconhecer uma história, o silêncio em um lugar de memória, a emoção que surge de forma inesperada.
Nesses instantes em que entendemos que não estamos apenas recebendo turistas. Estamos criando pontes.
E é isso que dá sentido a tudo o que fazemos."
DIASPORA.BLACK: O que esse momento revelou sobre o que acontece quando dois lados da diáspora se encontram?
DAMIANA SILVA: "Esse momento trouxe uma confirmação muito clara sobre o nosso propósito.
Ao longo dos anos, construímos experiências voltadas para a valorização da história afro-brasileira. Mas, quando recebemos grupos da diáspora, especialmente afrodescendentes dos Estados Unidos, essa experiência ganha uma outra dimensão.
O que acontece não é apenas interesse — é identificação.
Em lugares como Pequena África, Cais do Valongo ou Pedra do Sal, existe uma conexão que além de ser explicada, ela é sentida.
Esse encontro revela três aspectos importantes: a história da diáspora é compartilhada, mesmo atravessando geografias diferentes, existe um forte senso de pertencimento, mesmo em territórios ainda não visitados e há uma busca ativa por reconexão com essas narrativas.
Para muitos visitantes, não se trata apenas de conhecer — mas de reconhecer-se dentro daquela história.
E para nós, como operadores e anfitriões, isso reforça um ponto central: Não estamos apenas organizando roteiros. Estamos conduzindo experiências que exigem responsabilidade, escuta e profundidade."