Na Feira Preta Festival Celebra Viva Pequena África, a Diaspora.Black, em parceria com o BNDES, promoveu dois roteiros novos pela Pequena África: Instituto Pretos Novos e Casarão Cultural João de Alabá.
A Pequena África é um reconhecimento do legado africano e afrodescendente na formação do Rio de Janeiro. Quem caminha por esse território encontra múltiplas camadas de memória que podem ser vividas de formas completamente diferentes e, durante o festival, conduzimos os participantes por dois desses caminhos: o da história e da arqueologia, com o Instituto Pretos Novos, e o da espiritualidade e da tradição religiosa, com o
Casarão Cultural João de Alabá.
O roteiro do Instituto Pretos Novos: quando o chão revela a história
O Cemitério dos Pretos Novos surgiu em 1996, depois que a arqueóloga Merced Guimarães e o jornalista Petrônio Guimarães encontraram, durante uma reforma em casa, vestígios do que seria o maior cemitério de africanos escravizados das Américas. O que poderia permanecer oculto se transformou em espaço de pesquisa, preservação e memória.
Esse cemitério é o ponto de partida do roteiro do Instituto Pretos Novos (IPN). Ali estão os registros de homens, mulheres e crianças que morreram durante a travessia atlântica ou logo após o desembarque. A expressão "pretos novos" era utilizada na época para identificar os recém-chegados. Ao preservar esse espaço, o IPN ajudou a recuperar uma parte da história que permaneceu invisível por séculos.
O percurso segue para o Cais do Valongo, principal ponto de desembarque de africanos escravizados nas Américas, redescoberto, em 2011, durante as obras para os Jogos Olímpicos, marcou um dos capítulos mais importantes da arqueologia brasileira recente. Seis anos depois, veio o reconhecimento internacional da UNESCO.
O baobá próximo ao cais também ocupa um lugar especial na caminhada. Em diferentes tradições africanas, a árvore simboliza vida, ancestralidade e permanência. Plantada em um território marcado pela memória, sua presença cria uma ligação entre passado e presente.
A visita passa ainda pela Pedra do Sal e por outros pontos da região portuária, que revelam a dimensão dessa história, por meio de guias que compartilham um conhecimento construído a partir de pesquisa, convivência e compromisso com a preservação da memória.
O roteiro do Casarão Cultural João de Alabá: espiritualidade e resistência no território
João Alabá foi um dos babalorixás mais influentes do Rio de Janeiro entre o final do século XIX e o início do século XX. Nascido na África Ocidental, chegou ao Brasil na condição de escravizado e se tornou uma referência na preservação das tradições religiosas de matriz iorubá. Seu terreiro foi um espaço de resistência em uma época marcada pela perseguição às práticas afro-brasileiras.
O Casarão Cultural João de Alabá funciona hoje no antigo edifício da Casa da Guarda, no Jardim Suspenso do Valongo. O espaço promove atividades culturais, exposições, cinema, feiras e debates, sempre com foco na valorização da ancestralidade negra.
No Feira Preta Festival, o roteiro apresentado pelo Casarão partiu da dimensão espiritual desse território. Os participantes percorreram os mesmos lugares da Pequena África, mas guiados por outra leitura da história, a partir das tradições afro-brasileiras, da presença dos orixás e do legado deixado por João Alabá.
A programação incluiu ainda rodas de samba, feira de empreendedores e outras atividades culturais.
A arte de curar roteiros num território que não se esgota
Percorrer a Pequena África por esses dois caminhos ajuda a entender que a história desse território não cabe em uma única narrativa.
O roteiro do IPN parte dos vestígios históricos e arqueológicos. O Casarão João de Alabá conduz a experiência pela espiritualidade e pelo legado das religiões de matriz africana. Ambos olham para os mesmos lugares, mas destacam aspectos diferentes de uma mesma herança.
E essas não são as únicas possibilidades. A Pequena África também pode ser contada a partir do samba, das expressões artísticas que floresceram na região, da culinária, das lideranças femininas que sustentaram redes de cuidado e organização comunitária, ou de tantas outras histórias que atravessam o território.
Cada perspectiva ilumina uma parte desse patrimônio.
Esse também é o princípio que orienta a curadoria da Diaspora.Black. Criar roteiros afrocentrados é uma escolha sobre quais histórias serão colocadas em evidência, quem irá contá-las e de que forma o território será apresentado a quem chega para conhecê-lo.
O que organizações encontram quando escolhem esse caminho?
Empresas, universidades e instituições que promovem intercâmbios, programas de formação ou visitas técnicas costumam procurar experiências como essa, que ofereçam mais do que informações superficiais sobre um destino.
Os roteiros da Pequena África aproximam os participantes de processos históricos que ajudaram a moldar o Brasil e fazem isso por meio de pessoas diretamente ligadas à preservação dessas memórias.
Para organizações que desejam conhecer o Rio de Janeiro a partir de uma perspectiva mais conectada à história e às pessoas que a mantêm viva, a Diaspora.Black coordena toda a operação necessária para que essa experiência aconteça, da seleção dos parceiros locais à organização logística do grupo e ao acompanhamento da programação.
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