Conexões que atravessam o Atlântico: o reencontro de identidades no afroturismo

Jaqueline Santos • May 14, 2026

O que vivemos entre os dias 20 e 25 de março de 2026 foi uma jornada de reconexão e valorização de histórias e identidades.


A Diaspora.Black desenvolveu e operou uma série de experiências culturais afro-brasileiras para viajantes internacionais em passagem pelo Brasil a bordo de um cruzeiro. 


Nesse intercâmbio entre as diásporas do Brasil e dos Estados Unidos, conduzimos 297 viajantes por percursos que revelam as narrativas negras que estruturam a história e a cultura dos nossos territórios.

Territórios de memória viva 

A jornada começou em São Paulo, na maior metrópole do país, onde o grupo explorou o centro histórico a partir de uma perspectiva afrocentrada. Arte, migração, resistência e identidade revelaram as camadas negras que constroem a cidade até hoje. 


No Rio de Janeiro, o percurso incluiu a Pequena África, um dos territórios mais marcantes da história negra nas Américas. Entre o Cais do Valongo, a Pedra do Sal e outras memórias vivas, mergulhamos em histórias de resistência, fé e cultura. O grupo viveu ainda os bastidores do Carnaval e uma experiência com o grupo de afoxé Filhos de Ghandi. 


A experiência seguiu para Ilhabela, onde o grupo foi convidado a conhecer a força da identidade afrocaiçara. O roteiro incluiu vivências culturais, iniciativas locais e encontros com empreendedores do território, reforçando o papel do turismo como ferramenta de desenvolvimento.

Do turismo à ação no território




Como desdobramento direto da experiência, o resultado financeiro da operação foi integralmente reinvestido em Ilhabela, viabilizando a realização do 1º Fórum de Afroturismo e Economia Criativa da ilha.


O encontro reuniu empreendedores, lideranças, agentes culturais e especialistas, promovendo trocas, conexões e caminhos para o fortalecimento do afroturismo e da economia criativa local.


Vozes de pertencimento

A potência dessas experiências está no encontro. Quando a história deixa de ser apenas conteúdo e passa a ser vivida, novas conexões se estabelecem.


Como compartilhou a viajante Liz B., o tour foi “muito envolvente e conduzido com paixão… foi interessante perceber como a história afro-brasileira se conecta com a dos Estados Unidos”. Para Iris Shiver, a experiência se tornou “uma jornada marcante sobre nossa ancestralidade”.


Impacto que se traduz em movimento

Essa operação mobilizou uma rede de 12 guias especializados, além de restaurantes, coletivos e lideranças locais. Ao longo de 2026, mais de

R$ 166.983,15 foram movimentados na rede de afroempreendedores conectada ao projeto, fortalecendo a economia local e ampliando oportunidades nos territórios.



A Diaspora.Black segue conectando pessoas, territórios e histórias por meio de experiências que revelam o Brasil a partir de suas raízes.


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O Brasil acaba de ganhar mais um reconhecimento no cenário global do afroturismo. Nosso cofundador e diretor de operações, Antonio Pita, foi reconhecido pela organização Most Influential People of African Descent (MIPAD) como uma das 100 pessoas negras mais influentes do mundo em viagens, turismo e hotelaria em 2026. Há mais de dez anos, Antonio atua conectando turismo, cultura negra, diáspora africana e desenvolvimento de territórios. Seu trabalho passa pela formação de profissionais, criação de experiências e apoio a empreendedores, além da construção de diálogo com destinos e instituições. Esse percurso ajudou a ampliar a discussão sobre afroturismo no Brasil e a abrir espaço para novas perspectivas dentro do setor. Nesta entrevista, Antonio fala sobre o significado desse reconhecimento internacional, os caminhos percorridos até aqui e os desafios para fortalecer a conexão do Brasil com os territórios e experiências da diáspora africana. DIASPORA.BLACK: Antonio, o que significa para você estar entre as 100 pessoas negras mais influentes do mundo em viagens, turismo e hotelaria em 2026? ANTONIO PITA: " Fico muito feliz. É um reconhecimento importante, mas que não diz respeito a uma pessoa só. Ele reflete uma construção de mais de 10 anos para estabelecer e demarcar esse segmento no Brasil. Não por acaso, ainda há poucas pessoas brasileiras nessa lista. Até pouco tempo, a conexão entre turismo preto e diáspora africana era praticamente ignorada pelo mercado brasileiro, ou vista sem essa dimensão de mercado e potência internacional. Esse é um trabalho construído pela Diaspora.Black, por mim e por muitas organizações e pessoas que vêm abrindo caminho coletivamente. Lá atrás, o que a gente esperava era justamente isso: criar essa abertura para o mercado internacional e fazer com que o Brasil também fosse reconhecido nesse lugar." DIASPORA.BLACK: O que foi fundamental para chegar aqui? ANTONIO PITA: "Acho que foi fundamental construir um histórico de entregas em diferentes frentes. Desde o começo, a gente provocou a indústria do turismo a olhar para a falta de diversidade, promovendo treinamentos, certificações e trazendo conhecimento para qualificar a hospitalidade. Depois, passamos a olhar também para os destinos, entendendo como eles incorporam os atrativos do afroturismo e as experiências da cultura negra em suas estratégias de promoção e desenvolvimento. Isso fortalece a articulação que a gente vem construindo para o segmento como um todo. Mas talvez o mais importante seja o trabalho com os empreendedores. Conhecer as experiências, os roteiros e os produtos criados por cada um, entender como podem evoluir, ganhar escala e despertar mais interesse tanto dos visitantes quanto dos próprios moradores das cidades. É isso que fazemos com o Laboratório Criativo de Roteiros: articular essa rede de empreendedores e operadores para atuar no afroturismo. Existe um diálogo constante com o poder público, com o mercado, com as agências e com os territórios, sempre buscando entender quais experiências podem ser conectadas nessa cadeia para fortalecer o ecossistema como um todo." DIASPORA.BLACK: A curadoria de grupos internacionais, como o trabalho que fazemos com fundações e outras organizações, teve influência nesse reconhecimento? ANTONIO PITA: "Com certeza. Esse reconhecimento dialoga muito com esse trabalho de curadoria que a gente vem desenvolvendo: construir experiências culturais, roteiros e conexões com os territórios, além da forma como recebemos esses visitantes com qualidade e com impacto real para quem está nos territórios. É esse olhar que levamos para parceiros, organizações e fundações, no sentido de fazer uma mediação cultural. Receber esses grupos passa por entender o que eles desejam conhecer e construir experiências em diálogo com os territórios e com respeito às dinâmicas locais. Essa atuação também fortalece nosso entendimento sobre o que o público estrangeiro e o público da diáspora buscam vivenciar no Brasil. E acho que é justamente essa capacidade de conectar experiência, cultura e território de forma responsável que esse prêmio também reconhece." DIASPORA.BLACK: Que mensagem essa lista deixa para o trade de turismo brasileiro? ANTONIO PITA: "Acho que essa lista também mostra que existem muitos outros nomes importantes do afroturismo brasileiro que poderiam estar nesse reconhecimento. Fiquei ainda mais feliz por esse reconhecimento também destacar o trabalho de pessoas fundamentais para o ecossistema, como Bia Moremi, da Brafrika Viagens, além de Anita Moreau e Martinique Lewis. É uma evidência de que ainda existe um espaço enorme para fortalecer a relação do Brasil com os outros países da diáspora africana e também para o próprio mercado brasileiro olhar para o afroturismo com mais proximidade, mais respeito e entendimento do potencial que esse segmento tem."