Diaspora.Black, 10 anos, e a ideia que transformou o afroturismo

Jaqueline Santos • October 20, 2026

Em 2016, três amigos decidiram apostar em uma ideia que muita gente não entendia, queriam criar uma empresa que conectasse pessoas à história e à cultura da diáspora africana por meio de uma plataforma com experiências de viagem. 


O desafio era grande, precisavam tirar a ideia do papel, fazer o negócio crescer e conquistar espaço no mercado de inovação e tecnologia, onde ainda havia poucos empreendedores negros.


Vieram as primeiras incubadoras, a mudança para São Paulo, a conquista de investimentos, a pandemia e a expansão da empresa. Ao longo desse percurso, o propósito de valorizar a cultura negra e gerar oportunidades econômicas para as comunidades permaneceu como parte central do negócio.


Hoje a Diaspora.Black completa dez anos. Para celebrar a data, os sócios Carlos Humberto da Silva Filho, Antonio Pita e André Ribeiro se reuniram para uma conversa que deu origem ao primeiro episódio do podcast especial "Viagens que Transformam".


Confira os principais momentos da conversa.

O que representa celebrar dez anos da Diaspora.Black?

CARLOS HUMBERTO: "Representa uma conquista muito importante para nós e para toda a população negra. Grande parte dos negócios da comunidade negra enfrenta desafios para crescer e se manter no mercado. A trajetória da Diaspora.Black é marcada por conquistas e superação, sempre com a ancestralidade como base de tudo o que construímos.

Não teríamos chegado até aqui se não fosse Exu no nosso caminho, que foi o grande provocador, mobilizador e estimulador da nossa existência.

É também uma conquista ancestral. A possibilidade de criar uma empresa que exista por mais de cem anos, que seja para as próximas gerações negras e que deixe um legado para a comunidade.

Um legado que participa de um mercado econômico, transforma a atividade do turismo e promove o encontro das pessoas com suas próprias histórias."

ANDRÉ RIBEIRO: "Para mim, representa uma dedicação muito grande a algo coletivo. No início, a gente não sabia exatamente como começar. Foi um período de muito aprendizado, de assumir riscos e de buscar caminhos mesmo sem ter todas as respostas.

Hoje tenho plena consciência de que a Diaspora.Black é muito maior do que uma iniciativa pessoal. Ela nasceu com uma proposta de impacto coletivo, de fortalecer um grupo que ainda é sub-representado em diversas camadas da sociedade, inclusive no turismo.

Eu me vejo como um tijolinho nessa construção. Fico muito honrado por fazer parte de algo que, com a energia de tantas pessoas, conseguiu criar bases para deixar um legado."


ANTONIO PITA: "Tem um sabor muito especial de realização. Você olha para algo que visualizou há dez anos, que começou como uma ideia, algumas conversas, e hoje consegue enxergar tudo aquilo que foi realizado.

O mais significativo é perceber os frutos dessa construção na vida das pessoas e das comunidades. Pessoas que participaram das experiências, dos cursos, dos roteiros e que encontraram caminhos para se reconhecer na diáspora africana, na sua cultura e na sua identidade.

E nós também fomos transformados nesse processo. Empreender exige aprender o tempo inteiro. A gente não chega pronto."

Como foi começar a empreender em um mercado que ainda não entendia a proposta?

CARLOS HUMBERTO: "Enfrentamos muita descrença. Ouvimos várias vezes que não daria certo, que éramos loucos.

Quando começamos a participar dos ambientes de inovação e das primeiras aceleradoras, percebemos que éramos os únicos pretos do rolê.

Organizamos até um encontro na FGV, no Rio de Janeiro, para conhecer outros empreendedores negros de startups. Estávamos entre os primeiros dessa geração, aprendendo a ocupar aqueles espaços.

Participamos de incubadoras como que nos ajudaram a começar a operação. Depois, fomos selecionados para uma aceleração da Meta, no Facebook, e precisamos nos mudar para São Paulo sem ter uma estrutura preparada.

Mais tarde, conquistamos nosso primeiro investimento de um fundo profissional de venture capital. Vieram a internacionalização e a superação da pandemia.

Cada conquista reforçava que, apesar das incertezas, estávamos no caminho certo."


Antonio, você estava em um momento de mudança profissional. Como foi decidir empreender?


ANTONIO PITA: "Eu e Carlos estávamos saindo do universo corporativo. Naquela época, especialmente para jovens negros, deixar um emprego CLT para abrir um negócio que ninguém entendia era uma decisão difícil de explicar.

As pessoas questionavam muito. Agora que vocês têm estabilidade e estão crescendo na carreira, vão largar tudo por algo incerto?

Eu estava bastante esgotado com o trabalho e havia decidido fazer um período sabático na Bahia. Queria voltar para Salvador, descansar e pensar nos próximos passos.

Foi quando Carlos apareceu com a proposta da Diaspora.Black. A princípio, era para colaborar com algumas ideias.

Quando percebi, já estávamos completamente envolvidos, mudando para São Paulo e assumindo novos desafios."

O que vocês diriam para aqueles empreendedores de dez anos atrás?

ANDRÉ RIBEIRO: "Eu passaria mais confiança para aquele André.

Quando você está começando, testa muitas coisas e acaba se cobrando demais quando não acerta. Com o tempo, entende que todas as decisões também servem como aprendizado.

Nem tudo acontece exatamente como foi planejado. Outros caminhos também são válidos e podem levar você aonde precisa chegar.

Eu diria para confiar mais e não gastar tanta energia com as incertezas."


ANTONIO PITA: "Eu diria para acreditar mais em mim mesmo. Acreditar na minha capacidade de realizar aquela ideia e naquilo que eu tinha para contribuir.

Quando começamos, havia muitas dúvidas. Hoje, olhando para trás, percebemos que conseguimos chegar onde queríamos e até mais longe do que imaginávamos."


CARLOS HUMBERTO: "Olhando para trás, percebo que conquistamos tudo aquilo que havíamos desenhado no primeiro planejamento estratégico.

Mas também lembro do que foi necessário para chegar até aqui. Abri mão de muitos momentos com amigos e familiares porque estava completamente dedicado a empreender.

Hoje, olhar para a empresa que construímos é uma realização pessoal muito grande. Valeu a pena cada momento de dedicação.

E o mais importante é saber que estamos construindo algo que pode continuar existindo para as próximas gerações."

Quer acompanhar essa conversa na íntegra? Dê o play no primeiro episódio do podcast Viagens que Transformam.


▶️ Assista ao episódio completo.

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